Mostrar mensagens com a etiqueta estórinhas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta estórinhas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

trick or treat

Estiquei a mão para te tocar... esqueci-me que já não dormias na minha cama. Por momentos o tempo voltou atrás e eu acordava depois de uma noite de amor. Procurava-te na cama para te abraçar, para ficarmos juntinhos como tanto gostávamos, os nossos corpos nus a tocarem um no outro, misturando-se no meio dos lençóis. Tudo isso ficou no passado. Agora durmo sózinho, pois tu morreste. Morreste quando eu descobri que aquela cama não respirava apenas pelo meu suor, que deitavas nela outras pessoas com bastante regularidade. Como eras capaz de dizer que me amavas, se meia hora antes tinhas estado a foder com outro qualquer, que muitas vezes nem conhecias. Morreste mais um bocadinho quando eu descobri que me roubavas dinheiro. Meses preocupado com as diferenças no Bar e tu nada, não abrias a boca. Apanhei-te uma noite e tu disseste que era para poderes ajudar a tua mãe. Comecei a dar-te dinheiro regularmente, pois amava-te e a tua família era a minha família. Semanas depois vejo-te entregar o dinheiro à tua mãe, no dobrar de uma esquina, ela com barba e a alimentar-te a heroína. Como é que não tinha percebido? Como podia andar tão cego, tão distraído? Morreste mais um bocadinho, mas ainda não era suficiente. Os meses iam passando e eu ia vivendo desconfiado, com medo, perdido entre discusões e noites de amor, amando-te e odiando-te, querendo-te e desprezando-te. Há três semanas fui fazer as minhas análises de rotina anuais, fui buscá-las e nesse dia tomei uma decisão. Do Hospital fui para casa. Aspirei e lavei a casa toda, limpei o pó. Fechei-me na cozinha e preparei um maravilhoso caril de gambas. Preparei um banho de espuma e espalhei velas pela casa de banho. Arranjei uma bela mesa, acendi um cigarro e esperei. Chegaste três horas atrasado, mas não me importei. Pediste-me desculpa, jantámos e terminámos os nossos copos de vinho na varanda ao sabor de um cigarro e beijaste-me vorazmente. Na casa de banho tomamos o nosso banho e fizémos amor como se fosse a última vez! Ironia, pois foi mesmo a última vez, pois nessa noite morreste de vez! Hoje em dia só sinto a tua falta ao acordar de noite, ao ver que estou sózinho na cama, por pura solidão. De resto, por ti só consigo sentir raiva! Raiva quando me vêm cobrar dívidas tuas, raiva quando vejo que não posso pôr carne no congelador, raiva quando ainda hoje encontro pingas do teu sangue por limpar na casa de banho, raiva quando me lembro que me infectaste com HIV. Mas minto, além de raiva também me dás vontade de rir... rio ao ver que ninguém sentea tua falta ou se preocupa com a tua ausência, dás-me vontade de rir quando me lembro de ti a guinchar como uma menina!!!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

medo...

Ontem numa loja,duas senhoras pretas, um segurança e uma funcionária:

Preta1 (para o segurança)- O que foi,que foi? Porque é que estás só atrás de mim? Eu não preciso roubar que eu tenho dinheiro, não vim cá roubar!!!
(ouvindo o escarcel a funcionária aproxima-se)
Func.- Boa noite! Peço desculpa, há algum problema?
P1- É o teu segurança que anda só atrás de mim pela loja toda! Eu não roubo, não vim cá para roubar que eu tenho dinheiro...
Func.- Eu peço imensa desculpa,mas realmente não deve ter sido com qualquer intenção...
P1- Eu tenho muito dinheiro que eu não sou aqui do bairro, não moro aqui no bairro, eu moro mesmo em lisboa que eu tenho dinheiro!!! (para a amiga) - Tu já viste isto?Eu não sou do bairro, não acho bem...
P2 - Oh amiga,mas tu já viste a tua côr?...

poing,poing,poing...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

fantasmas

És tu naquela esplanada?… Não sei, não, não pode ser… desde que te enterrei que não sonhava contigo, pelo menos acordado. Foi a primeira vez em três anos que tive a sensação de te ver, por instantes tremi, os meus joelhos bateram um no outro à procura de apoio, da minha mão direita caiu o cigarro enquanto tentava dar um golfada nervosa, a cerveja subiu-me quase até à boca, a minha bexiga mexeu-se e pensei que não ia aguentar… Estúpido, como posso ter esquecido, ainda que por segundos, que tu morreste? Puxo outro cigarro e continuo o meu caminho em direcção a casa. Hoje devo sonhar contigo e odeio-te por isso! A minha mãe matou-te e eu amo-a mais a cada dia que passa por isso. Tenho-te gravado em mim, as mesmas feições angulares, o mesmo corpo alto e esguio e se calhar até a mesma facilidade de dissimulação e mentira, afinal sou vendedor… Aos dezasseis anos comecei-me a cortar com um x-acto talvez para canalizar a dor, como disse a psiquiatra, mas também foi para criar diferenças, tinha medo do quão parecido contigo me estava a tornar. O cabelo foi tingido de todas as cores e comia como um abade para ver se engordava. Nada parecia resultar, sempre me compararam contigo. Às vezes percebia a mãe a olhar-me, não como olhava enternecida para a minha irmã enquanto ela fazia um dos seus desenhos, mas sim com um olhar de medo e por vezes mesmo de nojo. Doía-me tanto perceber isso…sabia que ela gostava de mim, que ela gosta de mim, mas via-te a ti mais novo, talvez pela altura do início do vosso namoro e só conseguia sentir dor. Hoje quase não a visito, depois de te matar ficou louca, vive num asilo e quando me vê grita que nem uma louca, ironia, e acusa-me de todo o mal que lhe fizeste. Certos dias chega a acusar-me do próprio mal cometido por ti contra mim. É doloroso demais, tanto para mim como para ela e assim ela vive sozinha sem visitas. A Isabel diz que não aguenta lidar com todo esse passado e presente e fugiu simplesmente. Diz que não nos consegue ver, que se sente sempre a reviver tudo de novo. Dizem que os artistas são muito sensíveis, talvez. A última vez que a vi foi há mais de quatro anos, por acaso num café no centro da cidade e a última vez que falei com ela foi quando tu morreste. Não foi ao teu funeral, se calhar foi a única coerente e verdadeira na sua atitude. Bloqueou o passado, leva uma vida boémia, mas já se ouve falar dela aqui e ali pelas suas pinturas. Quem sofre é a mãe, ou não, desde que ficou chalupa os médicos dizem que perdeu a noção da realidade, mas aposto que lhe ia fazer bem vê-la… Que vida miserável, livra-se de ti, de uma vida a sofrer, mas nem aí tu a conseguiste deixar em paz, tiveste de arranjar maneira de garantir que ela não ia ser feliz. Tiveste de a transformar naquele pudim com esporádicos acessos de raiva. Filho da puta! Também te odeio por isso, assim como te odeio pela merda de vida que levo hoje, pelos pesadelos constantes, pelos medos, pela raiva que carrego e sobretudo pela dificuldade que ainda hoje tenho em relacionar-me com as pessoas. Quando faço sexo oiço sempre o chiar da porta do meu quarto de criança, sinto o teu corpo pesado de cima do meu, o teu cheiro a whisky no ar e acabo invariavelmente a chorar. Tu sim, estás morto, mas continuas bem vivo nas nossas vidas. Só gostava de saber porquê?… Tiro a chave do bolso, abro a porta do prédio e entro. Já se ouvem cá em baixo os gritos do João e da Catarina, devem discutir mais uma vez sobre o que ver na televisão. Abro a porta de casa com a cabeça já a explodir e mando-os para os seus quartos com um grito que faz tremer a casa, eles vão. Helena começa a dizer-me para falar mais baixo, para deixar os miúdos em paz, para parar de ser bruto. Eu não sou bruto, bruto era o meu pai, ela não tem o direito de dizer isso. Puxo a mão atrás e chego-lhe a roupa ao pêlo. Ela começa a berrar, não aguento berros, trazem tantas más recordações. Dou-lhe outra e outra e outra e outra e atiro-a contra a parede até que os seus berros se transformam num abafado murmúrio choroso. Paro. Eu não sou o meu pai, nos meus filhos nunca toquei! A Catarina tem as mamas a começar a crescer.

sábado, 30 de agosto de 2008

Era,Mas Não Foi...

Adriana lembra-se desse dia como se fosse hoje. Tinha acordado com os primeiros raios de sol que espreitavam através das vidraças da janela do seu quarto. Olhou Rafael, seu marido, deitado a seu lado. Reparando como o amava mais a cada dia que passava, apesar das marcas de uma velhice precoce evidentes no seu corpo. A medo, encosta a sua cabeça ao peito de Rafael e escuta. Sorri, ao ouvir o seu coração bater, agradecida a Deus, por lhe conceder mais um dia com o seu amado.

Levanta-se, vestindo o seu roupão de algodão, branco e ajoelha-se diante do toucador, para rezar a sua oração diária de agradecimento e também de prece, na esperança de um milagre, à Virgem Maria.

Ao sair do quarto, a manga do seu roupão fica presa na maçaneta da porta, dando-lhe um puxão. Ao sentir-se puxada para trás, lembra, como, ainda há pouco tempo ela experienciava tantas vezes essa sensação. Foram muitas as manhãs que, quando vinha do banho, apenas usando aquele mesmo roupão, e acordava Rafael para que ele se levantasse, este a puxava de novo para a cama. Enquanto a ia elogiando, dizendo-lhe que nunca vira mulher mais bonita ou cheirosa, abria-lhe o roupão e beijava-lhe o corpo. Percorrendo cada milímetro do mesmo. Quando já ambos desesperavam de desejo, ela aconchegava-o no meio das suas pernas e faziam amor enquanto se beijavam ardentemente. Com a lembrança, ela sente um arrepio percorre-lhe a espinha, talvez de desejo, mas ao olhá-lo, deitado naquele leito, pensa em como sem pensar duas vezes trocava todo esse conhecimento do prazer pela saúde dele.

Tomou banho e vestiu-se, esperava-a um novo dia, um longo dia. Subiu as escadas, acordou e arranjou os seus filhos, Maria José e Félix. Maria José ou Zézinha (como sempre foi mais conhecida) era a mais velha, com oito anos era uma menina muito bem comportada e muito vaidosa. Félix tinha cinco anos e era um menino que tinha tanto de querido como de traquina, dando por vezes cabo da cabeça de toda a gente lá de casa.

Desceram os três de mãos dadas, directos para a cozinha onde tomaram o pequeno-almoço, previamente preparado por Conceição. A criada de confiança, já com alguns anos de serviço na casa. Com o pequeno-almoço tomado, começa mais uma jornada.

Conceição sai de casa com as crianças, cada qual pendurada em seu braço, para percorrer o longo caminho, metade de paralelos e outra metade de terra batida, que os separava da escola primária feminina. Aí, a Zézinha ficaria entregue e ela voltaria para trás e faria a lida da casa, sempre com Félix atrelado.

Adriana preparou o pequeno-almoço, num tabuleiro, para Rafael e levou-lho à cama. Ele já estava acordado e mal a viu surgir na entrada do quarto sorriu-lhe, com vontade, apesar das dores. Ele não tinha acordado pior, graças a Deus. Trocaram algumas palavras carinhosas, nada de mais e ela deixou-o enquanto levava à boca a torrada barrada com manteiga feita há pouco com tanta dedicação.

Desceu para a loja e abriu as portas, dando de caras com fornecedor do pão que carregava dois caixotes enormes. A sua encomenda habitual. Passado pouco tempo, logo entraram, antes de toda a gente, para poderem escolher os pães mais clarinhos, a “ti” Mari Clara e a “ti” Ana Brites. Ambas levaram um pão e um quilo de arroz. A última levou ainda duzentos gramas de rebuçados, pois ia receber a visita dos netos. Perguntaram por Rafael e saíram.

(...)


E esta é aquela parte em que eu peço encarecidamente ao senhor ladrão que me roubou quase metade da vida, que me devolva o resto desta história...Não sei do que tive mais pena, se das coisas materiais, que ainda foram algumas, ou se de pequenas coisas como esta,se bem que também ainda foram algumas...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Mais Um Cigarro


Que nervos, mais uma vez ela está atrasada, já há quarenta minutos que espero por ela sozinho nesta mesa deste restaurante que nem sequer fui eu que escolhi. Estava desejoso de comer aquele caril fantástico do meu restaurante tailandês preferido e apenas aceitei vir aqui para lhe fazer a vontade… e nem assim ela tem a decência de chegar a horas, estou capaz de a matar. Aí chega, vindo a sorrir como se eu lhe fosse sorrir de volta! Pede desculpas, mas quase não a oiço, sei que é mais uma culpa de alguém que não ela, sei que não é importante e para evitar mais chatices simplesmente não oiço. Ao menos podia vir melhor vestida, já que se atrasou tanto…não sei o que se passa com ela, ultimamente anda sempre feita maltrapilha, não foi com esta gaja que eu comecei a namorar. Antes andava toda arranjadinha, sempre produzida, dava gosto passar horas a olhá-la… Agora?... Quem me dera que o restaurante tivesse uma televisão bem grande atrás dela para que eu não tivesse que a ver sequer. Lá está ela a falar do seu dia outra vez, como se alguém se pudesse mesmo interessar pelo mundo insondável, misterioso e estimulante de um laboratório de farmacologia! Faz-me um favor e enfia essa salada de uma vez pela boca a dentro para ver se eu tenho dois minutos de silêncio. De silêncio sim, porque sei que o tempo não chega para eu falar, já percebi isso há uns meses. Mesmo quando mostras algum interesse, assim que eu começo a falar algo mais importante surge e tens de me interromper… E que cheiro é este? Pergunto-te se te cheira a algo estranho e tu dizes que não. Mas o cheiro continua aqui…ah! É o teu novo perfume, aquele que eu já disse que não gosto muito, mas tu insistes que te faz sentir mais mulher, mais confiante. Mas eu tive de mudar de after-shave porque o meu te deixava enjoada e claro que foste tu que escolheste o que uso agora. Neste momento temos os dois cheiros que eu não suporto, tu vestes-te de maneira diferente, falas de coisas diferentes, as tuas grandes aventuras de hoje são as partidas do laboratório em que trocam os químicos uns aos outros. Perdeste o interesse em cinema, dizes que tens muito pouco tempo livre para o perder numa sala escura a ver um filme. Tenho dúvidas de quais são os nossos interesses em comum neste momento, de que falaríamos se conversássemos realmente. Sabes perfeitamente que fumo sempre um cigarro entre o prato e a sobremesa e ainda assim continuas a fazer-me invariavelmente o mesmo olhar reprovador. Ainda por cima estou nervoso e fumo um segundo e o teu olhar intensifica-se e quase que me fulminas. Azar! Partilhamos um petit gateaux com sorbet de limão, pedimos dois cafés e eu fico cada vez mais ansioso e nervoso, tenho de falar contigo e não sei como o fazer, só me apetece fugir. Correr para bem longe e fechar-me num sítio escuro a chorar como fazia em pequeno quando a minha mãe me ralhava. Olho para ti, olhas-me de volta e percebes que algo se passa, perguntas-me o que foi e eu digo para teres calma. Olhamo-nos mais uns minutos em silêncio e a tensão vai crescendo e tornando o ar cada vez mais pesado. Não sei se vou ser capaz de fazer isto hoje, aqui, como muitos sabem não é fácil… A tensão vai aumentando e quando percebo que ela não vai aguentar muito mais naquele estado decido-me a actuar e digo-o simplesmente:

- Queres casar comigo?

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Gilberto

Aqui há tempos conheci o Gilberto. Encontrei-o na rua, sentado num banco de jardim com os seus andrajosos trajes e os seus sacos do lixo. Era claramente um sem abrigo e vi logo que essa pessoa não me interessava… não que seja preconceituoso, mas na verdade, que poderia eu ter em comum com um sem abrigo? Óbvio que nada… Estava há espera da Mariana e sabia que teria de esperar pelo menos mais uns vinte minutos, o mais pequeno dos seus atrasos! Estava cansado e não havia mais nenhum banco nas redondezas, então deixando para trás o meu medo dos maus cheiros daquele mendigo e o medo da possibilidade de que ele metesse conversa comigo, sentei-me na ponta oposta do banco. Relutante acendi um cigarro, sem ter tempo de sequer guardar o maço, Gilberto pediu-me um. Não costumo dar, mas como não estava para o aturar a refilar estiquei-lhe o maço e o isqueiro. Ele agradeceu, eu acenei sem olhar e guardei o maço e o isqueiro. “Já percebi, não conversas comigo…”, disse-me ele. Aí senti-me mal, sempre orgulhoso de não ser preconceituoso e ali estava a esnobar uma pessoa só porque era mendigo. Quis falar com ele, pedir-lhe desculpas, dizer-lhe que não era nada disso, que podia falar se quisesse, mas só me saiu “Inda bem que percebeu!”. Não creditei nas palavras que tinham saído da minha boca, eu não era assim! Gilberto acenou com a cabeça e continuo no seu canto a fumar o meu cigarro. Olhei-o, notava-se na sua expressão impávida, inexpressiva que já se havia habituado áquela resposta de pessoas estúpidas. Ele devia ter uns 45/50 anos, um ar limpo, dentro do possível e uma cara bonita. Fazia-me lembrar uma fotografia do meu bisavô que a minha avó sempre exibia com orgulho quando se falava do seu pai. Achei que estava a ser indelicado e virei o olhar, não o queria ofender. Passados uns incómodos 10 minutos Mariana chegou, cumprimentou-me, olhou Gilberto e disse “Ai pá que nojo de pedintes, estão em todo o lado”, ao que eu respondi “Ya, podes crer”. Ele continuou impávido e isso começou a irritar-me…acrescentei “Vamos embora antes que apanhemos alguma doença” e fomos. Ah, esqueci-me de comentar, isto foi há uns sete anos, hoje moro na terceira caixa multibanco da avenida da Liberdade do lado direito de quem desce, fumo quando me dão cigarros e como quando há comida. Partilho muitas vezes o banco de jardim com Gilberto e somos amigos. Ele não se lembra de mim, pelo menos nunca disse nada e eu também não… Nunca mais vi a Mariana.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O Baloiço da Casa da Minha Avó

Quando era pequeno adorava ir a casa da minha avó. Ainda hoje gostava de lá poder ir, mas a minha avó morreu e a família decidiu vender a casa. Quisera eu ter dinheiro para comprar aquele ninho, aquele ver lar onde sempre fui feliz, mas não se pode ter tudo na vida… Diz-se que uma avó é uma segunda mãe. No meu caso é bem verdade, a “vó Geca” sempre foi mais que minha mãe e mais, é ainda hoje um exemplo para mim e o mais próximo que conheci, conheço de uma heroína! Teve uma vida bastante difícil, mas sempre lutou contra tudo e todos e nunca se tornou numa mulher amargurada.

De nova, toda a gente diz que era muito bonita, quase como um ser de outro planeta e não havia ninguém que não se deixasse encantar pela sua beleza e simpatia. Conta-se que quando ia ao cabeleireiro, todas as senhoras pediam para pintar o cabelo da cor do dela, ao que era impossível, aquela cor era natural. Não me custa acreditar nesta história, pois já depois de envelhecida o seu cabelo continuava lindo. De um branco como eu nunca tinha visto e acho que nunca mais hei-de voltar a ver. Pensem naquela imagem que todos temos de uma avó: uma senhora com os cabelos todos brancos, apanhados numa “banana”, com uma cara muito doce e que façamos nós o que fizermos nos trata bem e nos passa a mão pela cabeça… Essa é a minha avó, assim perfeita! Embora também me ralhasse quando necessário. Ainda me lembro de um dia em que aprendia a tabuada com ela, porque além de tudo ela era para lá de inteligente. Eu não conseguia atinar com a tabuada do sete, então ela mandou-me para o meu quarto estudar um pouco. Eu fui, mas não queria estudar e meio de propósito deixei-me dormir. Ela encontrou-me nesse preparo e ralhou-me tanto como não me lembro que me tenha ralhado outra vez. Estava preocupada que eu não aprendesse a tabuada e a verdade é que graças a ela ainda hoje a sei.

A casa dela era um mundo de alegria, tanto eu como a minha irmã e os meus primos, somos seis no total, adorávamos lá estar e passar lá o máximo de tempo possível. Não era uma mansão, mas também não era nada pequena. Toda de pedra, uma casa antiga e uma das primeiras a ter casa de banho na vila dos meus pais. E tinha um quintal encantador com um poço sedutor que nos entretinha horas e horas, simplesmente a olhá-lo ou a tirar e despejar água… Mas o que mais nos seduzia era mesmo aquela espécie de sótão que havia no piso de cima e que tinha ao centro, pendurado desde o tecto, um baloiço. Sim, um baloiço dentro de casa, há maior encanto para seis crianças? Aquela divisão era mágica, muito ampla e alta, com três janelas e além do baloiço continha uns poucos de brinquedos dos nossos pais, cinco baús cheios de recordações e um ou outro móvel já não usado. Claro que quando éramos crianças só ligávamos ao baloiço, era uma loucura, e ocasionalmente a algum brinquedo que achávamos piada. Podermos andar de baloiço dentro de casa deixava-nos maravilhados. Passávamos horas ali, empurrando-nos uns aos outros e às vezes chegávamos a discutir porque alguém estava no baloiço há tempo demais e teimava em não sair. Coisas de criança! Os anos foram passando, mas aquela continuou a ser a nossa divisão preferida e de eleição. Foi ali que pudemos falar dos nossos primeiros namorados e namoradas sem os cotas ouvirem, pois era tudo muito privado, sério e secreto… Mais tarde começámos a descobrir os baús e a desvendar um pouco mais da vida dos nossos pais. É incrível o que podemos descobrir sobre alguém, apenas vasculhando nas suas memórias, nos seus pertences, no seu passado. Passados uns anos, o sótão servia de esconderijo para os nossos primeiros cigarros, para discussões filosóficas, políticas, sociais e ambientais e para um ocasional charro,em momentos de maior rebeldia. Depois transformou-se apenas naquela lugar especial onde nos sentíamos à vontade para fazermos as nossas confissões uns aos outros. Onde, já mais parecidos com os nossos pais, nos queixávamos da vida e de todos os seus males. E sempre, sempre durante todos esses anos, essas rebeldias e confissões alguém ocupava o baloiço, como se fosse aquele vai e vem que nos ligasse, que nos unisse nessa cumplicidade tão nossa. A verdade é que desde que perdemos o nosso baloiço, a nossa relação tornou-se um pouco mais distante. Será que o baloiço tinha magia? Ou seria a nossa avó que a tinha?... Tenho saudades desse baloiço… O que ninguém sabe é que eu trouxe o baloiço da casa da avó, qualquer dia penduro-o na minha sala e convido os meus primos e a minha irmã para virem cá a casa. Aí tudo vai voltar a ser como antes…

sábado, 10 de maio de 2008

Da janela do meu quarto...

Da janela do meu quarto vejo-te sempre sair de casa…de vez em quando também me vês e acenas-me com um sorriso. Eu retribuo e sinto-me invadido por uma felicidade estonteante que me deixa contente o resto do dia, mas outras vezes não olhas sequer para trás…principalmente quando bates a porta com tanta força que se a casa não tivesse sido construída por ti, eu teria medo que ela caísse. Dessas vezes não fico feliz, fico triste, tão triste como se o mundo fosse acabar, como se um asteróide atingisse a terra, certeirinho ao meu coração.

Mas no outro dia aconteceu algo muito estranho… Saíste de casa e olhas-te para trás, eu estranhei, pois ainda ouvia a mãe lá em baixo a gritar. Era um daqueles dias que eu sabia que não me ias ver,ou sim. Dessa vez não me acenaste, olhaste-me com um olhar triste, entras-te no carro e foste-te embora. Eu percebi que algo de estranho se passava, conheço-te demasiado bem. Algo se passou dentro de mim, como se de uma premonição se tratasse, não me consegui conter e desatei a chorar lágrimas atrás de lágrimas. Não sabia bem porque chorava, mas precisava de o fazer… Mais tarde a mãe veio ao meu quarto e explicou-me como tu eras mau, que não gostavas de nós e que tinhas partido para não voltar. Eu não disse nada, mas sabia que não era verdade, eu sabia que tu nunca me irias abandonar até porque daí a dois dias tínhamos ficado de ir andar de bicicleta para o parque ao pé da casa da tia Amélia.

De guarda na minha janela, os dias foram passando e tu não voltaste…comecei a ficar preocupado, o que te terá acontecido? À mãe não podia perguntar nada, passava os dias a chorar com uma garrafa na mão e sempre que tentava falar com ela, respondia-me de maneira esquisita, que eu não conseguia perceber o que dizia ou gritava comigo. Perguntei por ti à avó, que também começou a chorar, mas lá me disse entre lágrimas, que havias de voltar. Aí fiquei contente.

Agora estou muito triste e preocupado. Já se passaram meses desde daquele dia, na semana passada a mãe teve um acidente estranho com uma tesoura, ainda não percebi porque precisava ela de uma tesoura no banho, mas mais uma vez, sempre que eu pergunto alguma coisa só me respondem com choro. A mãe teve de ficar no hospital por uns tempos, estou na casa da avó, espero que te lembres de me vir procurar aqui…e vem depressa que eu começo a pensar que algo de mau se passou contigo…